Ela sem Drama

Menos caos emocional, mais leveza na vida da mulher.

A lista invisível: a carga mental que ninguém vê

Leveza Emocional · Sobrecarga silenciosa

Seis e dez da manhã, a marmita já está na bolsa e você está com a mão na maçaneta quando lembra: hoje é dia de mandar fruta pra escola. Volta, pega a banana, confere se a roupa de educação física está na mochila e sai pensando que a sua mãe tem exame na quinta e ninguém confirmou o horário. Às nove da noite você está moída e, se alguém perguntar o que fez hoje, não sabe responder. Isso tem nome: carga mental, a lista invisível que roda por baixo do dia inteiro e nunca vira tarefa de ninguém.

Seis da manhã: a carga mental começa antes do café

Existe a lista que dá pra ver: lavar a roupa, fazer o almoço, responder o e-mail, levar na escola. E existe uma segunda lista, que roda por baixo dessa e nunca vira item de nada.

Pensa na roupa. Antes de lavar, você lembrou que o sabão ia acabar, olhou o tempo pra saber se dava pra estender lá fora, separou o que não pode ir na máquina e conferiu se o uniforme que a escola pediu pra segunda estava no cesto.

E no almoço: antes do fogão, você lembrou que a sua mãe não come pimentão, que sobrou arroz de ontem, que o feijão precisa sair do congelador de manhã e que amanhã tem consulta e não vai dar tempo de cozinhar.

A parte visível é a que aparece, e a outra pesa de um jeito diferente porque não tem começo, meio e fim. Uma tarefa acaba: a louça lavada está lavada. A lista invisível tem o trabalho de nunca deixar acabar. Lembrar antes, prever, conferir, atualizar. É estar de plantão.

Meio-dia: o trabalho que ninguém chama de trabalho

Hora do almoço, marmita no colo, e você abre o grupo da escola. Tem a autorização do passeio pra assinar, a reunião de pais marcada pras três da tarde de uma quarta-feira e a vaquinha do presente da professora. Cada mensagem pede ler, decidir, responder e lembrar de fazer. Nenhuma delas leva mais de um minuto, e quando você fecha o grupo o horário de almoço acabou.

Isso tem nome fora de casa: é trabalho. Dentro de casa, ninguém chama de nada.

O IBGE mede uma parte disso. Pela PNAD Contínua de 2022, divulgada pela Agência Brasil, as mulheres dedicam 21,3 horas por semana a afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, contra 11,7 horas dos homens. Fiquei pensando numa coisa: essa conta mede sobretudo o tempo de fazer. O tempo de lembrar, de conferir se alguém fez, de saber que o gás está no fim, quase não cabe nessa conta.

E um Pix de quinze reais mandado no automático, no meio desse almoço, é o tipo de coisa que depois some do mês sem deixar rastro. Tem um texto aqui só sobre pra onde vai o dinheiro quando você não comprou nada grande, e ele começa justamente por aí.

Quatro da tarde: o gás de duas casas

A minha hora é quatro da tarde. Eu estou no balcão da loja, com um cliente perguntando se o cimento já chegou e o telefone tocando, e do nada me vem: o gás está no fim. Ontem a chama do fogão já estava baixinha debaixo do feijão.

Atendi o cliente, peguei o celular e abri a lista do bloco de notas pra anotar. “Gás” já estava lá. Escrito na segunda. Era quinta.

Pois foi. Aí, já que estava com o celular na mão, mandei mensagem pra minha mãe: “O seu gás tá bom?” Ela respondeu na hora: “Tá. Você já almoçou?” Às quatro da tarde. Eu ri sozinha atrás do balcão.

Só mais tarde, indo pra casa, reparei na conta: em meia hora eu tinha pensado no gás de duas casas e não tinha pedido nenhum.

Oito da noite: “era só ter me pedido”

Aqui mora a parte que quase nunca é dita em voz alta, e que costuma virar briga quando é dita do jeito errado.

Quando tem mais alguém em casa, essa pessoa muitas vezes ajuda. Faz o que você pede. Só que pedir também dá trabalho, e esse trabalho é da lista invisível. Alguém precisa saber que aquilo existe, decidir a hora, lembrar de falar e depois conferir se foi feito. Quem faz isso continua carregando a coisa inteira, mesmo sem pôr a mão.

Por isso “me avisa que eu faço” alivia bem menos do que parece, porque o aviso continua tendo que sair de você.

Nove e meia: a cabeça que não deita junto

Você deita e a cabeça continua: amanhã tem que ligar pro dentista, o boleto vence quinta, faltou pilha do controle. É a lista rodando no único horário em que ninguém está pedindo nada.

Reparei que a minha cabeça volta sempre no que ficou em aberto, e que anotar o próximo passo de uma coisa solta um pouco: o que está escrito eu posso esquecer de propósito, porque sei onde está. Se o seu cansaço vem mais de decidir coisa demais do que de fazer, tem um texto sobre o cansaço que dormir não resolve que olha por esse lado.

O que dá pra tirar da cabeça a partir de amanhã

  1. Tire a lista da cabeça e bote num lugar. Papel na geladeira, bloco de notas, o que você já usa. Item guardado só na memória exige que você fique conferindo se ainda lembra dele. Escrito, você não precisa ficar conferindo. E, pelo que o meu “gás” ensinou, vale anotar junto quem faz e quando, senão o item fica lá parado desde segunda.
  2. Passe adiante a área, e não a tarefa. “Lava a louça hoje” devolve a louça pra você amanhã. “A louça é sua” tira a louça da sua cabeça: lembrar dela, decidir quando, comprar o detergente. É mais desconfortável de combinar do que um pedido solto.
  3. Combine o “bom o suficiente” antes. Muito do que você refaz, refaz porque ficou diferente do seu jeito. Combine o critério antes: como a cama fica, o que conta como cozinha limpa. Aí o refazer diminui, e com ele uma boa parte da irritação do fim do dia.

Se em casa não tem outro adulto pra quem passar uma área, a divisão procura outro lugar. A criança maior pode ficar com a mochila dela, do casaco à garrafinha. A avó ou a vizinha pode ficar com um dia fixo da semana, sem precisar de pedido novo toda vez. E tem item que pode simplesmente sair da lista. Quando alguém do grupo pede um favor que não cabe, as frases prontas pra dizer não sem culpa estão aqui.

Se a exaustão está com você há muito tempo, ou vem junto com um desânimo que não passa, vale procurar o posto de saúde ou um profissional. Dividir a lista ajuda no dia a dia, e esse cuidado é outro, que este texto não substitui.

O que dá pra querer

Debaixo dessa lista tem um desejo que quase nunca é escrito: um dia em que alguém lembra do gás antes de você, em que a pergunta “o que falta em casa?” sai de outra boca, e em que você deita e a cabeça deita junto, sem repassar o boleto de quinta. Em algumas casas isso depende de uma conversa longa, e em outras ainda não tem com quem conversar. Vale saber que você quer, e dizer isso em voz alta pra quem puder ouvir.

Amanhã, na hora do almoço, abre o bloco de notas e escreve três itens que só existem na sua cabeça. Só escrever, sem resolver nenhum. Do lado de um deles, põe um nome que não seja o seu.

Aí na sua casa, quem além de você lembra do gás? Responde com um nome lá no @elasemdrama, ou com um “ninguém”, que também vale.

Aline Costa, do Ela Sem Drama

Aline Costa

A Aline tem 38 anos, mora no interior da Bahia e sustenta sozinha a casa onde vive com o Davi, de 6. Ele quer saber por que o céu não cai, desenha foguete em tudo e confere o portão antes de dormir. Diz ele que é o homem da casa. Ela trabalha no balcão de uma loja de material de construção, almoça marmita no depósito e tem três potes de cominho no armário porque nunca lembra que ainda tem. A Aline é uma personagem, criada pra contar de perto o dia de quem segura a casa sozinha. Ela não escreve de quem chegou lá. Escreve do meio do caminho, com a louça na pia e o grupo da escola apitando.

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