Mulher em Ordem · Dinheiro que escapa
Dia vinte, sete e pouco da manhã, ônibus cheio. Você abre o app do banco entre um solavanco e outro, olha o saldo e fecha rápido, como se fechar mudasse o número. O dinheiro acabou e o mês ainda não. À noite, na mesa da cozinha, você senta pra entender pra onde vai o dinheiro quando você não comprou nada grande, e não acha nada pra apontar: nenhuma viagem, nenhum móvel novo. Só uma lista de coisas pequenas que, uma a uma, pareciam pequenas demais pra entrar na conta.
O dinheiro não some de uma vez
Compra grande tem cerimônia. Antes de trocar a geladeira você pesquisa preço e pensa por uma semana, e por isso ela fica na memória.
O que não tem cerimônia nenhuma é o resto. O pão que faltou. O Pix de quinze reais pra vaquinha do presente da professora, pedido no grupo da escola às dez da noite, que você mandou antes de terminar de ler a mensagem. O brinquedo da festa de sábado que você lembrou na sexta à noite. O carregador que sumiu e precisava de outro hoje.
Se o sim pra vaquinha saiu no automático, e não porque você queria dar, tem um texto aqui sobre como dizer não sem culpa, com as frases prontas pra essa hora. Aqui o assunto é outro: aqueles quinze reais não ficaram anotados em lugar nenhum.
Nenhum desses gastos é grande o bastante pra virar decisão, e juntos eles levam uma parte boa do mês. Como nenhum virou decisão, nenhum ficou registrado. É por isso que, no dia vinte, olhando o saldo no ônibus, a sensação é de que o dinheiro evaporou.
Os três lugares por onde ele vai embora
1. A reposição do que já está em casa. Você comprou de novo porque não sabia que ainda tinha. Acontece com tempero, pilha, meia de escola e creme.
Aqui em casa, o campeão é o cominho. Semana passada eu desci do ônibus, passei no mercadinho, lembrei que o cominho tinha acabado e peguei um pote. Cheguei, abri o armário pra guardar e dei de cara com dois potes fechados, um do lado do outro, atrás do pacote de farinha. Eu tinha comprado os dois do mesmo jeito, com a mesma certeza de que estava faltando. Aí pronto: agora são três, e eu olho pra eles toda vez que faço feijão, meio sem graça, como se eles fossem me cobrar alguma coisa.
É difícil guardar na cabeça o inventário de uma casa inteira enquanto se guarda também tudo o que está na lista invisível do dia: a fruta da escola, o gás no fim, a consulta de alguém. O armário fica por último, e a compra repetida entra no lugar dele.
E tem a versão mais cara: o produto que você tem, sabe que tem, e não usa. É o que acontece com o skincare que fica parado na gaveta: o frasco pela metade já foi pago e continua lá, esperando alguém lembrar dele.
2. A conveniência de última hora. Li numa cartilha de educação financeira do Banco Central que a sensação de urgência empurra a gente pra compra que não estava planejada, e fiquei pensando no meu mês: faz sentido. No meu caso, a pressa quase sempre vem de uma decisão que ficou pra depois.
O lanche comprado no caminho, porque você saiu sem café e a marmita ficou esquecida na geladeira. O aplicativo de entrega na terça, porque deu dez da noite e ninguém tinha jantado. Ninguém pediu comida por capricho: às dez da noite, com a casa com fome e você sem energia pra ligar o fogão, era a saída que tinha. Cada um desses gastos, sozinho, parece justo. Somados, viram um valor que você nunca sentou pra decidir.
3. A recorrência que você esqueceu que assinou. O teste gratuito que virou mensalidade. O streaming que ninguém abre há meses. E a prima dessas cobranças, que nem assinatura é: a parcela da sandália que você nem lembrava que ainda pagava, a sete de dez, escondida no meio da fatura, quando a sandália já está com a tira solta.
Cada cobrança dessas é pequena o suficiente pra passar despercebida no extrato, e é exatamente por isso que ela continua lá, mês após mês, sem nunca chamar atenção.
Quatro coisas pequenas que fecham essas saídas
Nenhuma delas leva mais que alguns minutos. Se levasse, não caberia na sua semana, e a gente já sabe o que acontece com o que não cabe.
- Abra a lista de assinaturas do seu celular. Ela fica na loja de aplicativos: no iPhone, nos Ajustes, dentro do seu nome; no Android, no aplicativo da Play Store, no menu do seu perfil. Ali aparece o que você assinou pela loja do aparelho. O que foi assinado direto no site do serviço fica de fora, então vale passar o olho também na fatura do cartão, atrás do que se repete com o mesmo valor todo mês e das parcelas que ainda faltam.
- Antes de repor, olhe. Abra o armário antes de botar na lista. Parece óbvio e é justamente o passo que a pressa come.
- Decida uma vez, não toda vez. O jantar de terça, o presente de aniversário infantil, quanto entra por mês pra vaquinha e rifa, a ordem em que você usa o que já tem. O que eu decido no domingo, a correria da terça não consegue desfazer. Se na sua casa não tem outro adulto pra dividir essas escolhas, vale ainda mais fazer do jeito mais simples: o mesmo jantar toda terça, e ninguém precisa aprovar o cardápio.
- O próximo entra quando o atual acabar. Uma regra só, pra qualquer categoria em que você acumula. Vale pro shampoo e pro caderno do mesmo jeito que vale pro creme.
Tem mês em que a conta não fecha mesmo cortando tudo o que dá pra cortar. Aí o aperto é de outro tamanho, e organização não dá conta de dívida. O Procon da sua cidade ou do seu estado e a Defensoria Pública orientam de graça sobre dívidas, e é por aí que vale começar. Este texto fala de rotina e de hábito de compra e não substitui orientação financeira.
O que muda quando essas compras aparecem
O dinheiro sai no meio de muitas coisas pequenas, cada uma resolvida com pressa, nenhuma com tempo de conferir o que já existe em casa. Eu não lembro do Pix da vaquinha porque nem pensei antes de mandar. Foi no automático, e o que eu faço no automático eu não guardo, então volta a acontecer no mês que vem, igualzinho. As quatro coisas ali em cima servem pra uma coisa só: fazer essas compras aparecerem antes de acontecerem, quando ainda dá pra decidir.
E dá pra querer mais do que entender o extrato. Dá pra querer chegar no dia vinte, abrir o app no ônibus e ver que ainda tem alguma coisa ali. Não precisa ser muito. Pode ser o bastante pra um sorvete na praça no domingo à tarde, escolhendo o sabor sem fazer conta de cabeça antes. Ninguém garante que o mês que vem vai ser assim, porque tem aperto que não depende de você. Mas esse sorvete pode entrar na lista, do lado do gás e da parcela, como coisa que você quer.
Pra começar hoje à noite
Quando chegar em casa, antes de fazer a lista do mercado, abra o armário da cozinha e olhe os temperos. Só olhar, sem arrumar nada. Se aparecer um pote repetido, ele já saiu da lista dessa semana.
E conta lá no @elasemdrama: qual foi o gasto pequeno desse mês que você só descobriu olhando o saldo?
Aline Costa, do Ela Sem Drama
