Ela sem Drama

Menos caos emocional, mais leveza na vida da mulher.

O cansaço que dormir não resolve

Leveza Emocional · Cansaço

Três da tarde, no trabalho, e você boceja pela quarta vez desde o almoço. Dormiu das onze às seis sem acordar nenhuma vez e, mesmo assim, abriu o olho cansada, com a lista do dia rodando antes de pôr o pé no chão: a merenda, o uniforme, a conta que vence hoje. Não foi insônia, não foi noite mal dormida, e explicar isso pra alguém sem parecer drama é difícil. Esse é o cansaço que dormir não resolve, e ele tem de onde vir.

Se eu dormi a noite inteira, por que continuo cansada?

Sono a gente repõe dormindo. Por isso a gente aprendeu a lidar com todo cansaço do mesmo jeito: deitar mais cedo, dormir até mais tarde no sábado, cochilar depois do almoço. Quando isso funciona, era sono.

Quando não funciona, era outra coisa, e começa a parte ruim. Você tentou a saída conhecida, ela não deu certo, e a conclusão que sobra é que o problema é você. Que está reclamando à toa. Que é a única que fica falando disso.

O que te gastou naquele dia provavelmente foi a cabeça, mais que o corpo. E deitar mais cedo alcança pouco desse gasto.

O que cansa tanto, se eu nem fiz força?

Decidir, pra começar. O que tem pro jantar, se o casaco vai ou não vai, se liga hoje ou amanhã pra marcar a consulta, qual remédio da sua mãe está no fim, se aquela mensagem do grupo da escola precisa de resposta agora. Nenhuma dessas decisões é difícil, e mesmo assim o dia vai nelas. Ouvi num podcast, voltando pra casa, que chamam isso de fadiga de decisão, a ideia de que escolher o dia inteiro também gasta, e fiquei pensando que ninguém conta as escolhas pequenas quando pergunta o que você fez hoje.

Depois, lembrar antes. Uma parte grande do seu dia é antecipar: a fruta de amanhã, o gás no fim, o aniversário de sábado. É a lista invisível, que roda por baixo de tudo e nunca termina.

Tem também o trabalho de medir o clima. Saber quem acordou de mau humor, quem não pode ouvir tal assunto hoje, como falar com um pra não magoar e com o outro pra ser levada a sério. Ninguém te pediu isso, e você faz todo dia.

E o mais silencioso de todos: ficar disponível. Mesmo sentada, mesmo sem ninguém chamando, uma parte de você fica de ouvido em pé. É a diferença entre estar em casa e estar de plantão em casa. Dá pra passar a noite inteira sem ser chamada e ainda assim não ter descansado, porque essa parte não desligou em nenhum momento.

Esse peso tem número. Na pesquisa Esgotadas, da Think Olga, feita em maio de 2023 com 1.078 mulheres de 18 a 65 anos, 86% disseram ter muita carga de responsabilidades.

Por que o fim de semana não resolve?

Porque o fim de semana quase nunca é folga. É a hora em que cabe o que não coube na semana: a roupa, o mercado, a visita, o aniversário da criança, a conversa que ficou pendente. Você troca o tipo de tarefa e segue no mesmo ritmo.

E tem uma segunda camada. Se você só se permite descansar depois que tudo estiver resolvido, o descanso fica esperando, porque sempre aparece mais uma coisa pra resolver.

Eu caio nessa até quando o fim de semana me dá a chance. Num domingo desses o Davi estava com o pai, eu voltei do almoço na casa da minha mãe e entrei numa casa em silêncio. Duas da tarde, nenhuma mochila no chão, ninguém perguntando por que o céu não cai. Sentei no sofá, levantei pra pegar água, reparei numa mancha perto da pia. Quando vi, estava com o balde no meio da sala, passando pano num chão que eu tinha passado no sábado. Ô, menina. Parei com o rodo na mão, meio rindo de mim: tinha a tarde inteira e não sabia fazer nada com ela que não fosse trabalho.

E o que descansa esse tipo de cansaço?

Dormir mais você provavelmente já tentou. Dá pra tentar outras quatro coisas. As duas primeiras cabem nesta semana; as outras duas mexem no arranjo da casa e levam mais tempo.

  1. Quinze minutos sem decisão nenhuma. Quinze minutos em que nada depende de você escolher. Não precisa ser útil, bonito nem contado pra ninguém. Olhar pela janela conta. Cola num horário que já existe, depois que a criança dorme ou antes de apagar a luz, porque horário solto some.
  2. Passe o plantão por uma hora, por escrito. Escolha uma hora, diga a alguém da casa quais são as três coisas que podem aparecer e o que fazer com cada uma, e deixe claro que nesse período quem responde é essa pessoa. Por escrito, porque de cabeça você continua sendo a central de informações. Se você é a única adulta da casa, o plantão não tem pra quem passar. Aí vale escolher uma hora em que você não responde mensagem, avisar antes, e combinar com a sua mãe, uma vizinha ou a criança maior o que é urgente de verdade e o que espera.
  3. Tire decisão da fila. O jantar fixo de terça, a mesma ordem de sempre, a roupa separada no domingo. Decisão que vira rotina sai da fila, e o texto sobre pra onde vai o dinheiro usa esse mesmo raciocínio com as compras pequenas do mês.
  4. Recuse na hora. Parte do que te esgota entrou no dia porque não teve hora de recusar. Dizer não sem se sentir culpada é a parte mais difícil disso, e é a que barra a coisa antes de ela entrar no seu dia.

Cansaço que não passa com descanso, que dura semanas, ou que vem junto com desânimo, falta de vontade e mudança no apetite ou no sono merece ser olhado por um profissional de saúde, e o posto de saúde é um bom lugar pra começar. Existem causas que nenhum ajuste de rotina resolve, e descobrir isso cedo é cuidado. Se estiver pesado demais pra carregar sozinha, o CVV atende pelo telefone 188, de graça, a qualquer hora. Este texto fala de organização e de divisão de responsabilidade, e não substitui avaliação médica.

E se sobrar uma hora?

Tem uma vontade que vale anotar junto com o resto: acordar numa segunda sem a lista rodando antes do despertador, ou chegar no domingo com vontade de fazer alguma coisa que é só sua. Muito do que pesa não depende de você, então ela não vira meta. Fica escrita, pra você lembrar que ela existe.

E quando sobrar uma hora livre, ela não precisa virar faxina. Pode virar cochilo, palavra cruzada, café com a vizinha no portão, sem render nada e sem ser contada pra ninguém.

Hoje, escolhe o horário dos seus quinze minutos sem decisão e põe um alarme no celular com um nome que não seja tarefa. “Janela”, por exemplo.

Se sobrar meia hora hoje, vai ser café ou cochilo? Deixa a sua escolha no @elasemdrama.

Com carinho,
Aline Costa, do Ela Sem Drama

Aline Costa

A Aline tem 38 anos, mora no interior da Bahia e sustenta sozinha a casa onde vive com o Davi, de 6. Ele quer saber por que o céu não cai, desenha foguete em tudo e confere o portão antes de dormir. Diz ele que é o homem da casa. Ela trabalha no balcão de uma loja de material de construção, almoça marmita no depósito e tem três potes de cominho no armário porque nunca lembra que ainda tem. A Aline é uma personagem, criada pra contar de perto o dia de quem segura a casa sozinha. Ela não escreve de quem chegou lá. Escreve do meio do caminho, com a louça na pia e o grupo da escola apitando.

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